O ciborgue do sertão veio pra sanar a seca
Resolver a condição da humanidade no planeta
Findar a poluição, consertar a natureza
E toda destruição que nós causamos, que beleza!
Vai, ciborgue do sertão, o primeiro em sua linha
A esperança da criança é um androide que caminha
Vai, ciborgue do sertão, bote ordem, repagine
E nos mostre resultado, que legado, imagine!
Teve muito treinamento, teve muito investimento
Teve especulação: Que será do lazarento?
Ele tem autonomia, ele tem conhecimento
Ele tem sabedoria e vai saber tirar proveito
Foi pro mundo estudar, ver o solo, ver o vento
Viu o ciclo do luar, observou o movimento
Viu a morte do oceano, o genocídio Guarani
Não chovia há mais de ano, quis chorar sem conseguir
Enfrentou tanta miséria, solitário na missão
Teve então uma ideia, o ciborgue do sertão
Mudou o seu linguajar, sua comunicação
Aprendeu como falar com os bichos do sertão
Eles percorreram o chão, o ciborgue e sua equipe
De Brasília ao Maranhão, de São Paulo a Sergipe
Ele desligou o chip, dormiu embaixo do céu
Aprendeu com o caboclo, irritou o coronel
Voltou muito encafifado, o homem branco era cruel
Foi então que a conclusão muito clara, no regresso
É que o homem só queria resultado sem processo
Pensa aqui, pensa de lá: Como é que vão ficar os rios e a vegetação? Não se podem recriar!
Ó, ciborgue do sertão, é o homem quem impede
Ele é como bactéria, prolifera e nunca perde
Talvez dê pra explicar, talvez dê pra insistir
Que o sistema em que eles vivem tem que se reconstruir!
Eles não vão escutar, já é ano de eleição
Vão querer terceirizar o fracasso da missão
Os bichos queriam o fim da Era dos Homens
Que só vivem de ilusão
Mas o homem me criou, posso fazer isso não
Me fizeram carne e aço, e eu sinto essa emoção
Ó, ciborgue do Nordeste, esse vai ser seu velório
Partiu como um bom cabra da peste, voltará como um bode expiatório
Mas ele acreditou na chance, fez a oportunidade
Convocou uma assembleia, foi-se embora pra cidade
E, chegando lá no centro, deu o seu depoimento, cheio de solenidade
Ouçam todos, minha gente, vou contar a minha história
Era uma vez o amanhã de um povo sem memória
Que trocou raiz por pressa, esqueceu a trajetória
Engoliu o mundo inteiro, por dinheiro, pela glória
Quer milagre sem caminho, quer colher sem semear
Eu sou só um artifício, nada fiz do chão brotar
Eu sou a prova da mania dessa megalomania
Com a tecnologia, até tudo se esgotar
Muito menos é preciso pra viver em paz consigo
Coisas fúteis e inúteis, não vos deixam enxergar
Peguem ele, prendam ele, e que sirva de lição!
Falha na engenharia do ciborgue do sertão
Ciborgue, ciborgue, ciborgue!
Seu destino já traçado, apontava para a morte
Era o fim anunciado, avançando a galope
E o ciborgue, com tristeza, enxergou de forma plana
Tem conserto a natureza, não a natureza humana
Já se foi há muito tempo, e a seca ainda maltrata
Quem que vai ouvir o vento, quem que luta pela mata?
Na floresta ainda vive quem resiste na peleja
As coisas seguem como são, e o que tiver que ser, que seja
O ciborgue do sertão virou lenda sertaneja
Dizem que mora no trovão, que ameaça e não goteja