Eu amo a rua
Esse sentimento de natureza toda íntima
Não vos seria revelado por mim
Se não julgasse
E razões não tivesse para julgar
Que esse amor assim absoluto
E assim exagerado
É partilhado por todos vós
Nós somos irmãos
Nós nos sentimos parecidos e iguais
Nas cidades, nas aldeias, nos povoados
Não porque soframos com a dor e os desprazeres
E a lei e a polícia
Mas porque nos une, nivela e agremia o amor
Da rua É esse mesmo sentimento imperturbável
E indissolúvel O único que, como a própria vida, resiste
Às idades e às épocas
Tudo se transforma, tudo varia
O amor, o ódio, o egoísmo
Hoje é mais amargo o riso
Mais dolorosa a ironia
Os séculos passam, deslizam
Levando as coisas úteis e os acontecimentos notáveis
Só persiste e fica
Legado das gerações, cada vez maior
O amor da rua
Seio com o sentimento da rua
Não passam os sábios e os charlatães
Que a lisonjeiam e resumem a banalidade
São, na primeira ocasião, desfeitos e sofrados com bola de sabão
A rua é a eterna imagem da ingenuidade
Comete crimes, desvaria à noite
E treme com a febre dos delírios
Para ela, como para as crianças
A aurora é sempre formosa
Para ela não há o despertar triste
Quando o Sol desponta e ela abre os olhos
Esquecido das próprias ações
É no encanto da vida renovada
No chilriado passaredo
No embalo nostálgico dos pregões
Tão modesta, tão lavada, tão risonha
Que parece papaguiar com o céu e com os anjos
Eu fui um pouco esse tipo complexo
E talvez por isso cada rua é para mim
Um ser vivo e imóvel