Vêm de longe
De mulheres envoltas em neve e montanha
De mãos tingidas pela terra escura
De vozes que sabiam o idioma escondido das ervas
Algo em suas veias continua incendiado
Mesmo que tenham passado anos
Se afastando de sua essência
Por isso o fogo captura seu olhar
Por isso, em algumas noites, escutas um chamado difícil de nomear
Como se o vento sussurrasse
Seu verdadeiro rosto
Desde um bosque nunca recorrido
E, no entanto, reconheces
Desperta, bruxa ️
Quis adormecer-te
O costume quis limitar-te
O medo
Quis fazer-te invisível
Mas tua alma
Nasceu indomável
Não indomável para destruir
Indomável de raízes e de água
De luas derramadas sobre rochas antigas
Seu espírito ainda conserva a memória
De antigos rituais
Ainda sabe dançar descalço
Sobre a terra úmida
Ainda sabe chorar
Para curar
Ainda sabe manter o olhar
E descobrir a verdade escondida entre silêncios
Tua força nunca desapareceu
Só foi coberta
Coberta por pequenos
Pequenos machucados e desencantos
Por dias repetidos sem cor
Até te fazer esquecer
Que um dia ardeu por dentro
Mas mesmo em silêncio
O fogo ainda é fogo
Ouça
Teu sangue está cantando
Bate com força dentro de ti
Como uma criatura antiga
Que se nega a continuar encerrada
Por isso ultimamente mudas
Por isso certos lugares
Já não te pertencem
Por isso algumas presenças
Te esgotam ao instante
Teu espírito está despertando os sentidos
Desperta, bruxa ️
Não para fugir do mundo
Mas para caminhar o consciente
Para se tornar sagrado a cada instante
Para lembrar que uma chama acesa
Também pode abrir caminhos invisíveis
Que cantar debaixo da noite em solidão
Também pode ser uma prece
De curar suas próprias cicatrizes
Também pode quebrar correntes antigas
Não temas a intensidade que vive dentro de ti
As mulheres da tua linhagem sobreviveram apagando
Talvez você nasceu para fazer o contrário
Para se tornar uma chama
Desperta, bruxa ️