Mourão Queimado

Luiz Faria e Silva Neto

Quando ainda era criança, numa noite do passado
Eu vi um clarão de fogo lá na mata do cerrado
Meu pai falou:-Não se assuste é algum mourão queimado
Que restou de uma fogueira no preparo do roçado
Pode parecer bobagem eu lembrar coisas assim
São pequenas grandes coisas que guardo dentro de mim
Na fumaça dos meus rastos por dezenas de verões
Deixei longe aquele fogo
Na distância dos sertões.

Mourão queimado junto aos sonhos de um menino
No cerrado do destino se fez cinzas como eu sou
Cinzas do tempo na fogueira da lembrança
Eu sou cinzas da criança
Que o passado conservou.

Pelo cipoal da vida num sertão que não tem fim
Vim vivendo e vim morrendo
Vim buscando alguem pra mim
Este amor que eu procurava logo assim, que eu encontrei
Entre as chamas traiçoeiras dos seus olhos me queimei
Sou mourão esfumaçando como aquele do roçado
Que eu vi, quando criança lá na mata do cerrado
Só que aquele incendiou-se pelas mãos de um lavrador
E eu fui incendiado pelas chamas do amor
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